SER e ESTAR: o caráter que nos acompanha em todos os lugares

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Peça de xadrez inteira ao lado de outra que se despedaça

“Me diga com quem andas e eu te direi quem és.” A frase era da minha avó. Na voz dela, não soava como advertência, mas como uma certeza tranquila, dessas que a vida confirma com o tempo. Durante anos achei que fosse apenas um ditado dos mais velhos. Hoje entendo que ali cabia uma lição inteira sobre caráter.

Linia Brandt diante de um tabuleiro de xadrez

A língua portuguesa nos oferece uma distinção preciosa entre SER e ESTAR. ESTAR é circunstância. Estamos em reuniões, em eventos, em países diferentes, em grupos que nem sempre escolhemos. SER é essência. É aquilo que levamos conosco para todos esses lugares e que não deveria mudar conforme o ambiente.

Penso muitas vezes num tabuleiro de xadrez. As peças circulam por casas brancas e pretas, avançam, recuam, ocupam posições diferentes a cada jogada. Mas o bispo nunca deixa de ser bispo, a torre nunca deixa de ser torre. Cada peça conhece o seu movimento e o respeita, e é justamente isso que torna o jogo possível. Um tabuleiro onde cada peça se move como quer não é liberdade, é desordem. E na desordem ninguém joga bem, ninguém constrói estratégia e ninguém chega a lugar algum.

A vida em sociedade não é tão diferente. Podemos ESTAR em muitas casas do tabuleiro, mudar de cidade, de país, de função, conviver com quem pensa diferente. O que dá sentido a esse movimento são os princípios que não se negociam: a palavra cumprida, o respeito às regras que garantem a convivência, a responsabilidade por aquilo que escolhemos fazer. Há valores que sustentam o jogo inteiro, e quando são abandonados, o tabuleiro perde a forma.

Ser uma pessoa direita, como se dizia antigamente, não é uma postura que se exibe. É uma prática silenciosa, que aparece nos detalhes. Aparece no respeito a quem não está presente e na recusa em defender o indefensável apenas porque nos convém. Há momentos em que seria mais fácil fechar os olhos, justificar o injustificável em causa própria, proteger uma posição em vez de proteger um princípio. É justamente nesses momentos que o caráter se revela. Ninguém é posto à prova quando concordar é confortável.

O respeito é o outro pilar desse ditado. Respeitar não é concordar com tudo, nem silenciar diante do que está errado. É reconhecer a dignidade de cada pessoa, mesmo quando discordamos dela. É saber divergir sem humilhar e afastar-se sem destruir pontes.

É aqui que a inteligência emocional entra, de forma discreta e decisiva. Conhecer as próprias emoções permite perceber quando um ambiente começa a nos puxar para longe de quem somos. Saber regulá-las evita reações impulsivas que mais tarde lamentaríamos. A empatia ajuda a compreender o outro sem abandonar as próprias convicções. E a maturidade ensina algo que a minha avó parecia saber por instinto: nem toda companhia precisa ser combatida, mas nem toda companhia precisa ser mantida. Como no xadrez, às vezes a jogada mais inteligente é não reagir, observar com calma e escolher o próximo movimento com serenidade.

Na vida de quem emigra, essa lição ganha ainda mais peso. Recomeçar em outro país nos coloca diante de muitas escolhas sobre com quem caminhar. Aprendi, ao longo de quase três décadas fora do Brasil, que a rede mais sólida não é a mais numerosa, e sim a mais coerente. É feita de pessoas que permanecem fiéis a si mesmas em qualquer casa do tabuleiro onde estejam.

O ditado da minha avó atravessou gerações porque não fala de aparências. Fala de coerência. Podemos ESTAR em muitos lugares, com muitas pessoas, em muitas fases da vida. Mas quem somos deveria chegar inteiro a todos eles.

Me diga com quem andas e eu te direi quem és. Hoje acrescentaria apenas uma coisa: diga-me também o que defendes, e eu saberei ainda mais.

Venha caminhar comigo e vamos estreitar laços. Esta ponte foi feita para ser atravessada junto.

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