Otacílio Soares fala em “maturidade” nas relações entre Brasil e Portugal

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O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB), Otacílio Soares, marcou presença nas comemorações oficiais do 204.º aniversário da Independência do Brasil, realizadas no dia 7 de setembro, na Residência Oficial do Embaixador da República Federativa do Brasil em Portugal, em Lisboa.

A receção foi promovida pelo embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro, e pela embaixatriz Maria José de Ávila, entre às 18h e às 20h, reunindo autoridades portuguesas e brasileiras, representantes do corpo diplomático, membros da comunidade luso-brasileira e convidados institucionais. O antigo Presidente da República Portuguesa Marcelo Rebelo de Sousa também esteve presente. O programa incluiu a execução dos hinos nacionais do Brasil e de Portugal pela Banda da Armada, com interpretação de Taiana Froes, seguindo-se a intervenção do embaixador e um momento de confraternização entre os convidados.

No âmbito do evento, Otacílio Soares concedeu uma entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, na qual analisou a evolução das relações entre Portugal e o Brasil, o momento vivido pelas empresas dos dois países, os desafios da internacionalização e as áreas onde considera existir margem para ampliar investimentos e negócios.

Reeleito presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB) para o biénio 2025-2026, Otacílio Soares tem defendido uma atuação da instituição orientada para a aproximação entre empresários, geração de negócios, internacionalização e atração de investimento. A própria Câmara tem promovido, ao longo de 2026, iniciativas relacionadas com comércio externo, internacionalização e cooperação empresarial entre os dois mercados.

Questionado sobre a evolução das relações entre os dois países ao longo dos 204 anos de Independência brasileira, Otacílio Soares considerou que os vínculos entraram numa etapa marcada por maior equilíbrio e pela componente económica.

“Sem dúvida, a relação entre Brasil e Portugal mudou muito ao longo desses 204 anos e, sobretudo nas últimas décadas, ganhou uma dimensão muito mais moderna e equilibrada. Hoje já não falamos apenas de uma relação baseada na história, na língua ou nos laços culturais. Existe uma relação económica, empresarial e humana muito concreta. Temos empresas brasileiras que utilizam Portugal como porta de entrada para a Europa e empresas portuguesas que encontram no Brasil um mercado de enorme dimensão e oportunidades. Isso acontece em setores como tecnologia, energia, construção, turismo, serviços financeiros, alimentação, indústria e comércio. Também é importante destacar a mobilidade de empresários, profissionais e estudantes entre os dois países. Essa circulação de pessoas cria relações, novas empresas e novos investimentos”, disse Otacílio, que acredita que “estamos a viver uma fase de maturidade dessa relação, em que Brasil e Portugal conseguem olhar um para o outro não apenas pelo passado que partilham, mas sobretudo pelas oportunidades que podem construir juntos no futuro”.

A análise acompanha uma linha de atuação que a CCILB tem procurado desenvolver nos últimos meses. Entre as iniciativas realizadas em 2026 estão encontros sobre internacionalização para o Brasil, participação em eventos de comércio externo e debates direcionados para a utilização de Portugal como ponto de acesso de empresas brasileiras ao espaço europeu.

Relativamente ao atual cenário das relações empresariais, o presidente dessa Câmara de Comércio destacou a complementaridade entre as duas economias, mas alertou para obstáculos que continuam a exigir preparação por parte dos investidores.

“A CCILB vê essas relações de forma muito positiva. Existe hoje uma complementaridade bastante interessante entre as duas economias. Portugal oferece estabilidade, integração ao mercado europeu, infraestrutura e uma posição geográfica estratégica. O Brasil, por sua vez, oferece escala, recursos naturais, uma economia muito diversificada, capacidade empresarial e um mercado consumidor extremamente relevante. Ao mesmo tempo, ainda existem desafios. Há questões burocráticas, fiscais, regulatórias e culturais que precisam ser melhor compreendidas pelos empresários dos dois lados. É justamente nesse ponto que instituições como a Câmara têm um papel importante, ajudando empresas a conhecer melhor os mercados, estabelecer contactos e evitar erros que muitas vezes acontecem por falta de informação”, frisou este responsável, que comenta ainda que “a atuação da CCILB deve ultrapassar a representação institucional e produzir resultados para os associados, através da aproximação entre empresas e entidades capazes de apoiar processos de internacionalização”.

“A Câmara de Comércio tem procurado atuar de forma cada vez mais prática. Temos promovido encontros empresariais, seminários, missões, eventos de networking e debates sobre temas relevantes para quem quer investir ou fazer negócios entre Brasil e Portugal. Também desenvolvemos iniciativas em áreas como inovação e tecnologia, turismo, comércio exterior, arbitragem, sustentabilidade e investimentos. Outro trabalho importante é aproximar empresas das instituições que podem efetivamente ajudá-las, como associações empresariais, entidades de promoção de investimento, bancos, escritórios especializados e organismos públicos dos dois países. A nossa preocupação é que a Câmara não seja apenas um espaço institucional, mas principalmente uma plataforma capaz de gerar negócios, informação e relacionamento para os seus associados”, afirmou.

Dados apurados pela nossa reportagem mostram que a CCILB tem procurado “reforçar esse posicionamento através de encontros empresariais e iniciativas de networking”, com foco declarado na “geração de oportunidades e na aproximação entre decisores, investidores e empresas dos dois países”.

Entre os segmentos que, na avaliação de Otacílio Soares, apresentam margem para crescimento, encontram-se “tecnologia, energia, indústria, turismo, agronegócio, serviços financeiros e economia digital”.

Este responsável destacou ainda a necessidade de criar condições para uma maior participação das pequenas e médias empresas nos processos de internacionalização.

“Existem muitas áreas que ainda podem avançar. Uma delas é a participação das pequenas e médias empresas nessa relação bilateral. As grandes empresas normalmente têm estrutura para estudar mercados, contratar consultores e instalar operações internacionais. Para as PME, esse processo é mais difícil e é justamente onde podemos criar mecanismos de apoio mais eficientes. Também vejo grandes oportunidades em tecnologia, energia, indústria, turismo, agronegócio, serviços financeiros e economia digital. Outro ponto fundamental é a utilização de Portugal como plataforma para empresas brasileiras chegarem ao mercado europeu e, no sentido inverso, o Brasil como plataforma para empresas portuguesas ampliarem a sua presença na América Latina. Com o avanço das relações entre a União Europeia e o Mercosul, essa dimensão tende a tornar-se ainda mais relevante”, adiantou.

“acontecimento de enorme importância para o Brasil”

Ao avaliar a receção em Lisboa, o presidente da Câmara de Comércio considerou que encontros desta natureza também desempenham uma função prática no desenvolvimento das relações empresariais, uma vez que permitem aproximar representantes institucionais e agentes económicos.

“Avaliei o evento de forma muito positiva. Esses encontros são importantes porque aproximam a comunidade empresarial, as instituições e a representação diplomática brasileira em Portugal. Além do conteúdo institucional, permitem criar relações pessoais, que continuam a ser fundamentais no mundo dos negócios. Um ponto do discurso do Embaixador que me chamou particularmente a atenção foi o convite para que os portugueses acompanhem e visitem o Brasil durante a Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027. É um acontecimento de enorme importância para o Brasil e para o mundo do desporto, mas que, na minha opinião, ainda está pouco divulgado em Portugal e mesmo internacionalmente quando comparado com a dimensão que terá. Será uma oportunidade extraordinária não apenas para o futebol feminino, mas também para o turismo, para a promoção internacional do Brasil e para a própria aproximação entre brasileiros e portugueses. É um evento que merece desde já muito mais atenção e divulgação”, explicou.

O Brasil vai receber a Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027 entre 24 de junho e 25 de julho. Será a primeira edição da competição realizada na América do Sul, com jogos em oito cidades: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O Maracanã, no Rio, receberá a partida de abertura e a final.

Para Otacílio Soares, a realização do Mundial representa também uma oportunidade para ampliar fluxos turísticos e aproximar portugueses e brasileiros. A leitura insere o desporto numa relação bilateral que, segundo o presidente da CCILB, já deixou de estar limitada aos vínculos históricos e culturais e passa cada vez mais por investimento, internacionalização, circulação de profissionais e desenvolvimento de negócios entre Portugal, Brasil, Europa e América Latina.

Ígor Lopes

 


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