
Cerca de 30 mil pessoas reuniram-se na segunda-feira, 17 de agosto, em Trafalgar Square, em Londres, numa vigília em memória do professor Jason Arday, sociólogo de 41 anos que, em 2023, se tornou o mais jovem professor negro da história da Universidade de Cambridge, tendo a mobilização sido acompanhada pela brasileira Juliana Kaiser, doutoranda em Gender and Sexuality Studies pela University College London (UCL).
A concentração ocorreu após semanas de intensa exposição pública em torno do percurso académico de Arday, que havia deixado Cambridge na sequência de acusações de plágio e de questionamentos sobre a sua trajetória. O professor negou as acusações, embora tenha reconhecido erros.
Para Juliana Kaiser, a dimensão pública do caso acabou por colocar em evidência uma questão mais ampla sobre a presença de pessoas negras em instituições académicas britânicas ainda maioritariamente brancas.
Durante a vigília, uma das frases que mais chamou a atenção da investigadora foi: “Precisamos sempre lembrar: o nome dele é Professor Jason Arday”. Para Juliana, a declaração evidenciou a necessidade de recuperar a dimensão humana de uma trajetória que, perante a controvérsia académica, acabou muitas vezes reduzida ao debate em torno das acusações.
O impacto da passagem de Arday por Cambridge também esteve presente no testemunho de uma das suas antigas alunas. Durante a vigília, a estudante explicou que a presença do professor naquele espaço académico alterou a forma como encarava as suas próprias possibilidades.
“Porque você fez, eu me senti capaz de fazer”, relatou a aluna, numa declaração que, para Juliana, ilustra uma das dimensões mais concretas da representatividade.
Os dados sobre a presença de professores negros no ensino superior britânico ajudam a enquadrar essa discussão. De acordo com a Higher Education Statistics Agency (HESA), havia 270 professores negros nas instituições de ensino superior do Reino Unido em 2024/25, correspondentes a 1% do total.
Na perspetiva de Juliana, a valorização da diversidade não deve ser colocada em oposição à exigência de responsabilidade académica.
“Defender diversidade não significa abandonar critérios de responsabilidade. E defender rigor não deveria significar olhar para a presença negra como algo que precisa ser permanentemente colocado à prova”, frisou.
A investigadora ressalva, contudo, que defender a representatividade não significa retirar pessoas negras do escrutínio ou considerar que estão acima de críticas e erros. A questão, segundo Juliana, está no efeito que a presença de determinadas pessoas pode produzir sobre aqueles que procuram posteriormente ocupar os mesmos espaços.
“Às vezes, alguém chegar antes é o que permite a outra pessoa imaginar que também pode chegar”, observou.
Para a doutoranda, a presença de Arday em Cambridge ultrapassou, assim, a dimensão da sua própria carreira académica.
“Para sua aluna, foi também uma espécie de autorização para tentar novamente”, declarou.
Juliana considera que esse pode ser um dos efeitos mais concretos da representatividade: não garantir trajetórias sem erros ou assegurar que todos os percursos serão exemplares, mas permitir que mais pessoas se reconheçam como possíveis ocupantes de espaços que, durante muito tempo, permaneceram pouco acessíveis a determinados grupos.
Ígor Lopes





