Mais rápido que cozinhar aspargos!

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Morar fora nos faz mais curiosos, você não acha? Para tudo há uma explicação, tudo parece que se conecta com algo que antes parecia não fazer nenhum sentido.

Eu provavelmente já comentei aqui ou ali que a primavera é a minha estação do ano preferida, é uma pena que passe tão rápido. Para mim, ela é a estação da esperança. Acredito que a esperança seja o motor dessa vida.

Num desses vídeos curtos das redes sociais, assisti a um trecho de uma antiga entrevista do Vinicius de Moraes em que ele diz que enquanto o homem tem esperança, ele pode viver, e que um homem que tem esperança, no geral, não faz mal a ninguém. Eu concordo, ter esperança nos dá a capacidade de continuar sonhando e são os sonhos que nos movem.

Mas o que eu estava pensando mesmo? Ah, sim! Queria falar sobre a curiosidade. Acho que a curiosidade é um dos ingredientes dos nossos sonhos, porque sonhar não é se iludir, sonhar é se projetar num futuro onde é possível realizar o que você ama. E para chegar a algum lugar, é preciso perguntar pelo caminho: para que lado tenho que ir?

Às vezes, é difícil despertar a curiosidade. A gente olha, mas não vê. A gente escuta, mas não ouve. A gente come, mas o sabor parece banal. É uma questão de treino. Imagine um degustador de café ou de vinhos: com muito treino e interesse, ele consegue identificar diversas notas, variedades de buquês aromáticos, consegue descrever percepções de maneira delicada, fazer comparações e classificar impressões objetivas e subjetivas; tudo isso faz dele um especialista no assunto.

A curiosidade amplia a nossa mentalidade. O que uma criança mais faz quando começa a falar e a perceber melhor o mundo? Ela pergunta: mas por quê? E depois de uma ou duas respostas, os adultos dizem: chega de perguntas! Porque sim!

Voltando à primavera… Nesta época do ano, na Itália, vejo as cores de novo. Saímos do inverno cinzento, nublado, sombrio para uma explosão de vida. Tantas flores, tanto verde, tantas frutas, tantos pássaros!

Vou ao banheiro rapidinho, meu marido comenta, notou que nosso xixi está com cheiro de aspargo? “Será?” Pensei comigo: não será esse produto de limpeza que está meio vencido? Ele me diz que é assim mesmo, toda vez que comemos aspargos o xixi sai com um cheiro particular. “Eca!”

Aspargos são típicos da primavera na Europa, na Itália a variedade mais comum é a verde, já os alemães apreciam muito os aspargos brancos. Os antigos romanos adoravam aspargos, as hortaliças eram muito aguardadas porque a produção durava poucas semanas, era difícil de conservar e de transportar por serem delicadas e perderem o sabor rapidamente. Existe até uma expressão atribuída ao Imperador Augusto: “mais rápido que cozinhar aspargos.” A frase era dita por ele quando se referia a uma tarefa que deveria ser executada urgentemente.

Ele tinha razão; outro dia, com pressa e sem concentração, ironicamente esqueci os aspargos no fogo por mais tempo que o recomendado por Augusto, resultado: aspargos molengos e fibrosos, com uma cor verde apagada, morta. Uma decepção. Deveria ter escutado Augusto! Mas não me permito desistir. O segredo parece estar em deixar a água ferver, colocar sal e jogar os aspargos, deixe uns 3 ou 4 minutos e resgate-os da água. Pronto, estão prontos. Crocantes, com um verde brilhante e uma aparência saudável.

E por que o xixi fica com aquele cheiro? Porque ele contém uma substância chamada ácido asparagúsico. Depois da digestão, nosso corpo o transforma em compostos sulfurados voláteis, processo parecido com o que acontece com o alho, a cebola, os ovos. Esses compostos são tão voláteis que, quando saem pelo xixi, evaporam, emanando o cheiro que lembra enxofre; esse cheiro esquisito pode ser percebido logo após ser ingerido, uns 15 minutos depois.

A primavera e a vida são assim, passam num piscar de olhos, mais rápido do que cozinhar aspargos. Aproveite!