
Março sempre chega como um lembrete silencioso da força feminina que atravessa séculos, fronteiras e narrativas.
E neste ano, quando celebramos os 40 anos do Salão do Livro de Genebra, essa força ganha ainda mais significado. Afinal, a literatura, assim como a arte, a cura e a vida, sempre encontrou na mulher uma das suas fontes mais profundas de criação.
E talvez nenhuma frase traduza tão bem a energia criadora feminina. A mulher cria a partir do que vive, do que sente, do que recolhe pelo caminho. Cria a partir das partes que precisou costurar, das dores que precisou transformar, das luzes que precisou acender dentro de si. A mulher cria antes mesmo de escrever.
Cria quando sente, quando percebe, quando intui. Cria quando transforma silêncio em gesto, dor em palavra, cotidiano em poesia. Cria quando dá luz, não apenas a filhos, mas a ideias, projetos, movimentos, mundos. A energia criadora feminina é ancestral. Ela nasce do corpo, mas também do invisível. É uma energia que não se limita ao fazer; ela se manifesta no modo de olhar, de acolher, de interpretar o mundo.A mulher não cria apenas com as mãos, cria com a alma inteira.
No universo da arte e da literatura, essa sensibilidade se torna ponte. A mulher escreve como quem costura memórias. Pinta como quem cura feridas antigas.
Dança como quem devolve ao corpo o direito de existir. E quando ela narra, ela não apenas conta histórias: ela devolve humanidade ao que foi esquecido.
A energia criadora feminina é, acima de tudo, uma energia de transmutação.
Onde há caos, ela organiza.
Onde há sombra, ela ilumina.
Onde há ruptura, ela reinventa.
E talvez seja por isso que, ao longo da história, tantas mulheres tenham encontrado na escrita um território de liberdade.
A literatura sempre foi um espaço onde elas puderam existir sem pedir permissão.
Um espaço onde a sensibilidade não era fraqueza, mas força. Onde a intuição não era superstição, mas sabedoria. Onde a emoção não era excesso, mas linguagem.
No Salão do Livro de Genebra, essa presença feminina se expande. Mulheres que escrevem, que editam, que pesquisam, que ilustram, que traduzem, que curam através das palavras.
Mulheres que passaram por oceanos, geográficos e internos, para levar suas narrativas ao mundo. Mulheres que transformam suas vivências em legado.
E é impossível falar de energia criadora sem falar do corpo feminino como território simbólico. O corpo que sente, que pressente, que carrega memórias de gerações. O corpo que aprende a se reconstruir diante das expectativas, das pressões, das violências e das reinvenções.
O corpo que, mesmo ferido, continua sendo fonte de vida.
A mulher cria porque precisa.
Cria porque é chamada.
Cria porque sua sensibilidade não cabe dentro dela, precisa se derramar no mundo.
Na arte, essa sensibilidade se transforma em cor.
Na literatura, em palavra.
Na maternidade, em cuidado.
Na liderança, em visão.
Na cura, em presença.
E é justamente essa multiplicidade que torna a energia criadora feminina tão singular. Ela não é linear; é cíclica. Não é rígida; é fluida. Não é previsível; é intuitiva. A mulher cria a partir do que vive, mas também a partir do que sonha. Cria a partir do que sente, mas também a partir do que pressente.
Hoje, quando celebramos as mulheres no mês de março e celebramos também quatro décadas de um dos eventos literários mais importantes da Europa, reconhecemos que a presença feminina não é apenas participação, é fundamento
Hoje, quando celebramos as mulheres no mês de março e celebramos também quatro décadas de um dos eventos literários mais importantes da Europa, reconhecemos que a presença feminina não é apenas participação, é fundamento.
Sem a sensibilidade das mulheres, a literatura perderia profundidade. Sem a visão das mulheres, a arte perderia nuance. Sem a energia criadora das mulheres, o mundo perderia luz.
Que este Salão do Livro de Genebra seja mais uma oportunidade de honrar essa força. De reconhecer que a mulher não apenas cria, ela sustenta, transforma, ilumina.
E que sua sensibilidade, tantas vezes subestimada, é justamente o que mantém viva a chama da arte, da literatura e da própria humanidade.
Porque tudo o que a mulher toca, ela
expande.
Tudo o que a mulher sente, ela traduz.
Tudo o que a mulher cria, ela ilumina.
E é assim, com luz, que seguimos
escrevendo o futuro.


